O Mar Que Olhava Para O Rio

21.11.2011

Por: Pr. Rubens Duarte

Excerto de “A Maior de Todas as Loucuras”

O mar estava calmo naquela manhã.Era primavera. O ar fresco tocava a face robusta e visivelmente cansada daquele pescador do mar da Galiléia. Sentou-se numa grande pedra, acomodou-se. Suas mãos calejadas apertavam seu queixo saliente, cotovelos fixos nos joelhos, olhos perdidos no horizonte-um pescador desanimado.

Há dias o mar não estava generoso e os peixes simplesmente desapareceram! O rude pescador acostumado aos altos e baixos da profissão se dava ao direito de separar-se para um merecido descanso.

-Simão! Simão!

Uma voz rouca e apressada aproximou-se molhando os pés descalços na espumante maré.

-Simão!Zebedeu está à sua procura, precisa falar-lhe.

Ele se levantou subitamente e, tirando os olhos do horizonte vazio, os colocou nos olhos cheios de vida de sua mulher, disposta e predisposta a servir e cuidar bem do marido, que, por sua vez, correspondia com cuidados peculiares a um homem rude, porém amoroso e fiel.

-Simão, você está triste por falta de trabalho? Zebedeu lhe procura, precisa de ajuda com as redes.

-Fizeram boa pescaria?

-Sim! Pegaram muitos peixes!

-Que bom, eu já estava mesmo cansado de descansar. Respondeu Simão esboçando um sorriso.

Puxado pelas mãos firmes e amigas de sua mulher foi Simão, com um ar de felicidade ao encontro do velho Zebedeu, pai de dois de seus mais íntimos amigos: Tiago e João.

Realmente a empresa de pesca da família Boanerges ia muito bem. Prosperava nas mãos dos jovens empreendedores. Simão e André, seu irmão, quase se tornaram sócios dos Boanerges, mas preferiram continuar pescando à parte, e, sempre que era necessário, prestavam serviços para seus amigos e recebiam uma generosa recompensa em peixes, muitos peixes. Todos ali viviam da pesca, Compartilhavam uma vida simples sem que lhes faltasse coisa alguma, muito menos alegria. Tinham em comum os reveses da profissão, mas, também, o consolo de amizades sinceras, compromissos de ajuda mútua e companheirismo.

Os dias passavam lentamente e a rotina na vida dos pescadores seguia seu destino.

Algo porem incomodava a alma de Simão. Ele começava a pensar que aquele “suposto” desânimo que estivera sentindo em seu coração, na verdade, não era mesmo um desânimo, mas, uma insatisfação! Não estava mais conformado com aquela vida, e as palavras que tinha ouvido de um “profeta” o havia incomodado muito. Sua esposa também notara certa inquietação nas noites do seu amado, porquanto o via acordado nas madrugadas, e, às vezes, se levantando e deixando o dia amanhecer sobre os seus pensamentos.

Simão estava mesmo mudado, agora, porém, menos preocupado, vez por outra em meio aos seus devaneios, deixava aparecer um largo sorriso. .

-Vou ver João.

Sua mulher em tom descontraído disse:

-Esteve com ele durante todo o dia e ainda quer vê-lo?

-Não, querida, é outro João. -Retrucou Simão.

-O profeta?

-Sim.

Sempre que tinha uma folga, Simão procurava João Batista.

As palavras daquele homem estavam lhe abrindo o entendimento, estavam lhe quebrando a monotonia de sua simples vida de um bom marido, um bom pai, um amigo fiel,… Havia algo mais naquelas palavras que o levava a uma reflexão: João Batista falava de uma forma que o confrontava.Entrava no seu conforto e sacudia sua mente acostumada com a rotina e a monotonia dos cultos na sinagoga.

A leitura das escrituras e as colocações frias que Simão ouvia todos os sábados estavam dando lugar ao fogo, à ousadia e à coragem das pregações do profeta.

Com o passar dos dias, Simão já alternava seu trabalho de pescador no mar da Galileia com as conversas com João próximo ao rio Jordão, no caminho do deserto, onde aparecera o profeta, vestido de pele de camelos, comendo mel silvestre e gafanhotos.

Estas “esquisitices”, porém, não ofuscavam o brilho dos ensinamentos de João, pelo contrário, davam mais autenticidade, porquanto quebravam a hipocrisia religiosa daqueles dias.

Simão havia, então, se tornado discípulo de João Batista. Levava consigo seu irmão André, mais moço que ele, mas sempre um amigo presente, um bom ouvinte, atencioso e prestativo. Assim era André. Simão o olhava com ternura, e, mesmo com aquele coração calejado pela vida, encontrava uma maneira de demonstrar que amava seu irmão. Muito mais agora que estava convencido de que encontrara em João Batista um discipulador que o estava levando a experimentar grandes mudanças no seu comportamento.

Por: Pr. Rubens Duarte

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